terça-feira, 4 de agosto de 2009

A rotina e os riscos

Lendo "A Montanha Mágica", de Thomas Mann, um trecho acabou me chamando a atenção e me provocou inúmeras reflexões. O trecho na verdade é um capítulo que discorre um pouco sobre a idéia corrente de efemeridade do tempo conforme realizamos atividades que nos dão prazer. Mann foge exatamente dessa idéia e nos diz que analisando a nossa vida como um todo veremos que isso não é verdade.
Aquelas tarefas chamadas de rotineiras, e que geralmente nos trazem a idéia de que o tempo está passando vagarosamente, na verdade são muito mais efêmeras do que aqueles pequenos períodos de tempo em que visamos a interrupção de uma rotina. Quanto mais nos afastamos da rotina, maior é a durabilidade do tempo. Um exemplo claro disso é o período em que passamos na escola. Ao analisarmos todo o período em que vivemos ali, veremos que são irrelevantes os horários das aulas durante a semana ou a duração de cada uma delas. Refletiremos mais sobre todos aqueles eventos que "quebraram" com aquela rotina, seja algum evento estranho àquele modo de vida, como algum comportamento desviante de algum aluno, ou mesmo um conhecimento transmitido por algum professor e que adquirimos por ter achado o assunto interessante.
É claro, a memória exerce um papel fundamental nesse processo de reconstrução do tempo vivido, mas de certa forma esse processo é inevitável. Se recorremos ao passado, certamente estamos realizando um processo de reconstrução de algum evento vivido. Geralmente são esses eventos que fogem da rotina, que estão mais sujeitos à atividade da memória, e portanto acabam se tornando mais duradouros à longo prazo, do que qualquer evento rotineiro, que em princípio parece tão longo.
A rotina é inevitável, e eu diria até necessária, entretanto muitas vezes ela é capaz de nos entorpecer e nos tornar conservadores em relação às nossas escolhas. É muito confortável não assumir os riscos da mudança. As atividades rotineiras muitas vezes nos tornam alheios, geram passividade e omissão e eliminam os riscos , e estes são fundamentais para que o indivíduo viva experiências variadas e consequentemente torne o tempo mais duradouro.

O personagem fictício Ivan Ilítch, de Lev Tolstói, nos deixa claro isso. Apenas quando está moribundo, prestes a morrer, olha para trás e percebe que a sua vida, o típico ideal burguês, de formar-se, arrumar um emprego, crescer no emprego, ter filhos e "estabilizar-se" na vida, muitas vezes assume um caráter vazio. Morre um sujeito infeliz, arrependido de não ter se arriscado mais em sua vida.

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Pelo menos é essa a minha visão, e não quero desmerecer todos aqueles que convivem muito bem com a rotina.

2 comentários:

  1. Porra. Meio Paulo Coelho esse post.

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  2. hahuehauheuahe o texto é muito bom, mas melhor ainda foi o seu comentário.

    depois eu volto aqui, releio com calma e faço umcomentário construtivo sobre ele.

    beijos!

    ps: já editou o filme? vamos fazer um pré-estreia na casa de alguém!!! xD

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